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19/08/2010

Senão

Há anos não me sentia daquele jeito, mas já acabou. As pernas tremiam, no coração, o sangue parecia ter vida própria, pois o sentia dançar, os pensamentos todos nela, só nela. Às vezes, flagrava a mim mesmo com lágrimas nos olhos. Vocês sabem do que se trata, a emoção é muito forte.

Saía da casa de um amigo às 8h, após uma noite de bebedeira com chopp gratuito, petiscos e salgadinhos em miniatura. Era uma formatura de um companheiro de faculdade que nem daqui é, quase provinciano. Nessa noite, bebi, conversei e me diverti; cheguei até a jogar cartas, coisa que não me tem apreço. Não podia imaginar o que me esperava nessa manhã de quinta-feira, mas os velhos sentimentos sempre voltam.

A casa desse amigo era ao lado do local da festa, porém, a mesma terminou mais cedo do que esperávamos. Fomos a um bar, depois de uma boa caminhada trocando as pernas e marcando território lá e cá. Alguns reclamam desse atentado ao pudor e à higiene, mas na hora de lutar por banheiros públicos, esses imbecis, todos eles, somem.

No bar, pedimos uma garrafa de cerveja gelada e coletamos alguns cigarros da caixa para que eles acompanhassem a famosa loira. A conversa fluía em concordância sobre o bom e velho comunismo. Levantei-me e fui ao banheiro, normal depois de tantos copos de álcool. Lá um proxeneta me chamou a atenção. Perguntava se me conhecia de algum lugar, pois era “roqueiro”. O sujeito me encheu o saco durante a mijada a dizer que seu pai era o melhor baixista da cidade e me mostrou sua identidade que continha uma homenagem lusa e pobre ao Jimi Hendrix. O nome do infeliz era Jimi Peter.

Mais além, voltei para mesa e retomamos a conversa. Sentíamos-nos embriagados e sem vontade de beber mais. Pedimos copos de plástico para que levássemos a cerveja restante. Com eles, subimos a avenida em direção às camas, onde dormimos profundamente até às 8h. Não falo nada. O sujeito tinha que trabalhar, porém ninguém, nem o mais pobre ou burro e feio do planeta merece acordar cedo. Entretanto, conformamo-nos e disparamos à rua.

Nos separamos e eu fui para o ponto de ônibus. A condução não demorou e estava vazia, isso nunca acontece, talvez este tenha sido um sinal. Meu itinerário incluía dois terminais e três ônibus, porém uma só viagem para gastar. Desci do baú, como o ônibus é chamado pelos estudantes e logo entrei em outro, bem mais cheio e fui em pé.

O segundo terminal demorou bem mais para chegar, como se todo aparato de concreto, asfalto e ferros que caminhasse até mim. Lá é que começaram as estranhas sensações conhecidas por todos os indivíduos realizados. Mãos suavam e era como eu pudesse sentir o vento e o sol de um modo diferente enquanto o suor era transformado em sebo por sua ação. Momentos de pseudo-alívio, quase mágicos, iam e vinham, mas eu tinha que encontrá-la, antes que fosse tarde demais.

No ônibus, já a caminho de casa, me deu certo desespero, achei que não ia dar tempo; confiei, não tinha outro jeito. Consegui me sentar, fui na janela, admirando o caminho enquanto pensava. Quanto mais perto eu me aproximava mais insuportável era a sensação de perda e resolvi, depois de descer, me apressar. As pernas pareciam não responder aos meus comandos, só aceleravam, o suor escorria pela face, cabelos se arrepiavam ao sopro rebelde dos ventos; o caminho fazia-se mais longo que parecia.

Quase, foi por pouco. Com maestria, velocidade e ferocidade abri o portão defeituoso com uma só mão e tranquei-o. Invadi a casa, quase que arrombando a porta e a vi de longe, cada vez mais perto. Corri para o seu encontro, ela estava lá branca e fria, mas pensei: foda-se, vou sentar nela mesmo assim, senão cago na roupa. Devia estar sentindo a dor que as mulheres sentem no parto, sentia ela se mexer e me chutar, como se fosse criar mãos e por se fora do canal de uma vez por todas. Cantos de choro recém-nascido ecoavam por todo o recinto e eu prostrado pairava morto sobre o trono. Deu até fome.

H.O.

13/07/2010

Laborar em erro

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Naqueles dias em que a mente alcança dimensões holísticas tem início uma caminhada desagradável em busca de emprego. O balançar equilibrado da caminhada e o vacilo pendular da cabeça no passar das pernas são manifestações físicas de que há um pensamento ruminante infestando as curvas do pai dos pensamentos.

Um relógio cansado fincava seus ponteiros indicando que o dia chegava as suas 14 horas. Era uma quinta-feira de verão, o mais conturbado, climaticamente falando, que já presenciei em minhas décadas de vida. Estava num momento de revigoração pós-almoço caseiro, espremido entre as paredes resumidas de uma bóia, buscando coragem para voltar a amargar o sol de 40ºC.

A manhã foi um lapso excepcionalmente cansativo. A estafa da necessidade financeira acompanhada noites mal dormidas é instrumento inquisidor no aleijamento dos sonhos. O despertador, objeto rotineiro por qual nutro certo ódio, auxilia em meu despertar desonroso e desesperado. “Hoje eu arrumo um trabalho”, essas palavras pensadas são como miragem: corro, como o rato atrás do queijo, em sua direção, mas nunca as alcanço.

Cinco da manhã. Sem mãe, pai, filhos, família. A vida de desconforto – falta disso, daquilo e de comida – é só minha e do meu amigo estômago. Ao levantar, escovo os dentes com a higiene que a pobreza me concede. Lavo as louças, poucas, sujas de água rala de feijão e farinha. Tomo um banho, coloco minha melhor combinação de roupas – já surradas – para o dia de, quem sabe, trabalho.

Sorte

Ao menos, moro na região central da cidade, presente do meu pai, um rico decadente. A única coisa que sobrou. Com pasta e currículos nas mãos, começo a caminhada. É duro arranjar emprego, mas como sou formado em duas faculdades, esperava um pouco mais de facilidade; acredite: esse tipo de coisa não existe.

Botecos, bares, lojas de roupas, de acessórios; escolas, universidades, livrarias, sebos, shopping centers, mercados, armazéns, cooperativas de taxi, mototaxi; aeroporto, tapeçarias, padarias, açougues, brechós. Fui a todos os tipos de estabelecimento ao longo das ruelas, ruas e avenidas da região. Tudo trescalava o cheiro da esperança natimorta.

Hoje os calçados achados não suportaram a agonia de meus passos. Rasgaram-se suas laterais, deixando minha aparência surrada patética. Calos doem a tantos dias que começo a apreciar sua companhia. Sangue e suor não mais escorrem, tornaram-se carapaça brilhosa receptora de sujeira, agora o dia cambaleia de sono.

Silhuetas passam rápidas ao entardecer alaranjado, serpenteando pelo tráfego caótico do horário de pico, se dirigindo a seus carros ou pontos de ônibus. Lotação? Nem pensar. As poucas moedas que representam passagens para uns são o meu jantar. Voltei a pé, rua por rua, recolhendo gota por gota do suor vão daquele dia.

Em casa, o mofo se acumula em cogumelos que cogito comer. Panelas vazias organizadas e lavadas em cima da pia com água cortada. Roupas vão ao chão, com o que resta na caixa d’água, banho. “Janta”. Colchão. Vozes. Sono. Vozes. Despertador. Vozes. Mesa. Restaurante. Multidão. Relógio: 14h01. Sapato. Meias. Terno. Eu. Prato e talheres, minha companhia, deixo para trás. É hora de pagar a conta e voltar a trabalhar.

Por Hugo O.

02/04/2010

Cambueira

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Sob as águas de março todo tipo de comunicação, da gritaria ao sussurro, se torna “conversa ribeira” e o advento dessas chuvas, para muita gente, contrariando o pensamento de Jobim, não é mesmo “o fim da canseira”. Agulhas d’água, vindas de um infinito turvo, banham o solo impermeável e as colinas e morros, transbordando depressões e bocas-de-lobo. As nuvens, ensimesmadas, derrubam temores diferentes a cada gota que deixam escapulir de sua introversão. Olhando todo esse mundo cinza, não há lugar para os recortes individuais da verdade de Drummond, todos enxergam, todos pensam: vai desabar.

À noite, deitado, a escuto. Visualizo a gota que não cabe lá no céu se formar e descer pelas colunas rachadas que seguram o mau-tempo. Se jogando, caindo aquém, à mercê, mas cortando os ventos, alcançam os concretos com o peso da natureza em suas pequenas dimensões. Os sons que fazem os pingos nos telhados, nos tijolos, nos pisos compõem a sinfonia do tédio. Os sóis, há dias, se contam apenas com calendário, pois este não brilha, ao menos contempla nossa pele com incômodo seco do calor veronil.

Como que torcidas, as nuvens soltam as águas em cima do mundo. Rios transbordam, vales e moradias inundam, raios e seus clarões fazem o dia visitar a noite. Árvores são empurradas e arrancadas pelas raízes aos uivos que comemoram a força dos ventos. Animais procuram abrigos e, entre eles, feliz é o João-de-barro. O solo impermeável transforma-se em correnteza que entope lama os bueiros, construções desabam, pessoas acordam desesperadas e seus choros são abafados pelo coro alto e pelo toque das gotas cadentes.

Amanhece, porém o sol ainda dorme. A lei do mínimo movimento é outorgada, contradizendo a opinião dos franceses no tempo da “belle époque” brasileira, de que nosso clima e fartura elaboram a letargia. As pessoas que não sofreram com a tempestade despertam depois de um bom sono ao canto hídrico do cair de mais água nas poças. Levantam e partem para o banho, a única chuva que podem controlar. Falam baixo e somente o necessário. Inconscientemente as cores das vestimentas mudam. Antes ébrias, agora sóbrias as vestes aderem a voga outoneira. Não é à toa que essa estação dá nome à primeira etapa da velhice, de vagar e desanimada.

Ensejo

E toca o despertador em prol do não-desperdício do dia. São dez horas e a primeira coisa que faço é ligar o computador, que não liga. Os mais modernos costumam reclamar da falta de energia, não eu. Vejo o ódio dos outros, mas percebo a situação com olhos diferentes. A modernidade chegou avassaladora e sem pedir licença fragmentou nosso mundo, nossa vida.

As brincadeiras das crianças metropolitanas são um exemplo dessa desunião. Não mais existe o pique-esconde, o golzinho, as cicatrizes, os corpos esbeltos, a diversão face-a-face. Os computadores são centros funcionais cujas pessoas podem fazer de tudo movendo apenas os dedos. Os encontros são marcados e a coletividade moderna se configura virtual. Turmas juntas, mas separadas esfriam suas relações. Depressões e inércia são aspectos do novo mundo. A preguiça, o sedentarismo assolam as crianças, cada vez mais barrigudas. Esse tipo de coisa me envelhece.

Oportunidade. É o que a falta de energia elétrica. A família se une para relembrar e rir dos acontecimentos das décadas passadas. Os amigos e os namorados se visitam e caminham, contando histórias pelas ruas de galhos secos e folhas molhadas pelo orvalho matutino. É dia de ler. Leituras físicas em que se pode sentir o cheiro, o peso, a textura dos velhos papéis são feitas e o gosto pelo contato é readquirido pelo gesto simples de passar manualmente as páginas. Escrever à luz branca do dia nublado com lápis, borracha e apontador nas mãos, desenhar os signos e reconsiderar a beleza na manuscrição dos signos. Esse era o modo de escrita dos gênios antigos. Jeito simples que deixava que o sentimento escorresse das mãos, pelo lápis, rumo às palavras.

Ótimo, mas o imediatismo e a instantaneidade exigem a alimentação da tecnodependência: energia volta e se essa crônica tiver um leitor, este saberá qual é o fim dela.

Por H.O.

09/02/2010

Trilha sonora

Pulem! Disse um homem de colete verde-limão ao nos ver sem jeito com as catrácas. Elas estavam lacradas, os ponteiros já acusavam madrugada e o terminal estava vazio. Pulamos. Pura falta de sorte, talvez, se tivéssemos chegado dez minutos mais cedo... Quais eram nossas opções? Pegar um taxi, sobre duas ou quatro rodas ou voltar à pé: voltemos à pé, dissemos os dois com avareza escorrendo entre os lábios.

Partimos num corujão para a região central. Dentro do ônibus estavam os pobres-coitados trabalhadores e vagabundos sujos e suados e sonolentos. Fomos para o fundo, de onde podíamos ver a todos e saber quem queria nos olhar. Na manhã recente, a condução articulada em seu centro parecia cortar, como uma bala, o coágulo de ruas sem carros e barulhos típicos de urbe. O Corujão pára. Sobem quatro jovens etilistas, gozando dos prazeres de quem, por hora, os controla: Loucura. Descemos.

A rua era um ermo não-findouro aos olhos novatos, mas não para nós. A chuva derramava em gotas finas, nos forçando a procurar uma proteção para nossas cabeças. Um boné e um gorro depois, avistamos às margens da avenida um boteco. A entrada fedia urina velha, cerveja e cigarro barato. Pedimos ao caixa que nos alcançasse duas garrafas d'água e uma caixa de cigarros dos bons para sobrevivermos aos perigos da caminhada escura como durões.

A chuva ainda estava fresca sob o solo impermeável quando saímos do estabelecimento. Pegamos descendo em direção às nossas camas, norte da cidade. Ruas longas e herméticas formavam nosso ambiente, pelo menos enquanto a viagem durasse. Gritos e gargalhadas longínquas periódicamente invadiam nosso recorte da realidade, atrapalhando nossa conversa baixa.

A rodoviária não estava longe, uns 500 metros talvez. Som de violão começou a soar atrás de nós, equanto caminhávamos. A trilha sonora era uma coisa com que podíamos nos acostumar. Um som que acompanhava nossas vozes e que cantava o silêncio de nossas vírgulas e pontos finais. Era uma boa companhia o sujeito que caminhava calado, mas tocando, porém nem percebemos quando ele se foi.

Corpos em silhueta montavam a feira de domingo às luzes dos postes. Cruzamos as ferragens, as lonas e as formas humanas que dormiam ao léu para não ter que pagar diária de hotel. Avistamos então a rodoviária que agora é tambem centro de compras e entramos, sabendo que ela podia ser a nossa última parada com comida, água e sanitários.

Mãos foram lavadas, as garrafas foram reenchidas, mas faltava o que comer. Fomos até uma lanchonete que dava de frente para os terminais de embarque. Compramos um pacote de bolachas e dois cafés-pretos. Comemos, bebemos e partimos, tinhamos mais três ou quatros setores para cruzar.

Andamos por ruas cheias de botecos, cada um com sua música, importunando o sono da madrugada. Um violão baixo saía duma casa em direção da rua e fez-nos cantar "Nothing else matters". Chegamos ao nosso setor falando de assuntos como preconceitos e o tempo que a humanidade perde dando destaque e importância a diferênças ínfimas.

Sentamo-nos na sargeta que contornava o Corpo de Bombeiros e desenterramos as plantas-dos-pés do chão. Discutimos sobre amores, medicina, sociedade e viagens, dando o sentido mais completo que a frase "Open mind for a different view" pode ter. Um micro-ônibus passou por nós na rotatória e ao invés de seguir a avenida, retornou e parou em nossa frente: temos aqui duas garotas que fazem programa, é a primeira vez da loira. 100 reais, estão interessados? Aceleraram e rumaram para seu destino de prostituição, nos deixando a discutir o que mulheres com belezas como aquelas poderiam estar fazendo.

O tempo, como sempre chamamos o cigarro, estava acabando e nos pusemos a caminhar novamente. Babacas com suas caras inchadas, ensoberbecidos de futilidades, carregados de arrogância juvenil voavam em seus carros para a própria ou a morte de alguém. No canteiro central da avenida os viamos passar, segurando nossos últimos cigarros: o tempo desse tempo acabou. E cada um voltou à sua cama.

Por H. O.

24/01/2010

A taxidermia do dia : momento empalhado com fins de eternidade

        Naquele dia, levantei-me cedo. Mesmo após ter feito a noite durar até às quatro da madrugada.
        Não importava, sentia uma corrente de disposição correndo pelo meu corpo com salpicos de ansiedade. Essa última nunca deixava meus batimentos em paz, tinha sempre que me lembrar
a razão de eu ter me levantado.
        Às 10 da manhã tomei meu banho, lavando minha preguiça de vez.
        A cada hora que passava meu objetivo se fazia mais definido em minha mente. Aquele nervosismo inerente a cada  homem, que é cáustico e divertido, digno e iminente ao encontro com ela.
        Sofreguidão. Essa é a palavra. Uma que tira o açúcar do sangue, nos faz pálidos e de cabeça pesada a carregar fardos de pensamento. De casa até o ponto de encontro levaram dois ônibus de demora e suas janelas somaram o maior conforto que tive durante todo o jovem dia, como bons ombros amigos.
        Eram 16 horas e eu não tinha mais conduções para tomar. Estava cedo, o horário marcado piscava em minha mente. Eram vários os elementos de nervoso que não me deixavam esquecer das responsabilidades.
        Fui até a casa de um amigo, um apartamento de onde podia-se ver a localidade. Naquele ambiente me senti mais leve, a gravidade que me castigou durante todo o dia, nesse momento me segurava. Os ombros de carne e osso me disseram que tudo iria correr bem e o tiroteio que exterminou as borboletas em meu estômago deu  uma trégua.
        Esse sentimento era anormal, rapidamente me tomou, me fez pulsar.
        Perguntei: será? e as palavras de resposta foram nesse sentido:
Dará certo hoje, bem como amanhã. Uma resposta automática percorreu meu cérebro, desceu, tomou posse da língua e a pronunciou: duvido.
        Premarei-me, assim mesmo, para ir. Estava quase na hora. Resolvi dar uma verificada num site de convivência, pois dias atrás recorri à opinião de melhor amiga, quase nunca falha. Ler aquilo foi como se eu tivesse crescido, ficado mais forte, a confiança chegou e minha mente duvidosa fez de si sua marionete.
A parte que importa
        Sentia-me em casa. A livraria sempre foi um ambiente perfeito. Os estilos, gêneros, tipos de livros e pessoas se misturavam; todos haviam encontrado seus livros, o meu ainda estava por chegar.
        Três minutos além do trato e ela chega. Seu sorriso. Seu cabelo. Seus pés. Suas roupas. Sua voz. Sua pele. Seu cheiro. A leitura fez-se saciada. A introversão era inconveniente, hora de ser eu.
        Conversamos por um bom tempo, saímos da livraria em direção ao cinema e eu segurando meus impulsos de tocá-la.
Paguei os ingressos ignorando qualquer discórdia em relação ao dinheiro. Estava tudo ótimo. A conversa fluía como olhos percorriam linhas de um livro escritas com experiência e prazer. Não desejava fazer outra coisa, só estar ali, em sua companhia.
        Deu a hora. A fila para entrar nas salas começava a se formar. Fomos um dos primeiros a entrar e ao nos sentarmos, minha tensão retornou.
        O cinema é um lugar interessante. Mesmo depois da facada de ânsia que tomei ao entrar, sabia que era lá que as coisas aconteciam, a atmosfera do lugar é experiente em produzir relacionamentos. Flagrei-me pensando em como faria, mas resolvi deixar a natureza tomar conta.
        Enquanto as propagandas passavam a conversa continuou, quando apagaram as luzes. De repente, todos se calaram e foi como se esperassem uma atitude de minha parte. Como para não decepcionar o público, me arrisquei.
        Sua mão direita estava deitada sobre o braço da cadeira e brilhava com as luzes do filme que acabava de começar. Sua cabeça estava para frente, como se estivesse congelada por meu olhar. Ela sabia. Estava nervosa.
        Mínimo, anelar, médio, indicador e polegar. Um de cada vez, inseguro,  fui recolhend0-os para minha mão, enquanto buscava as alterações que o nervosismo havia produzido em sua face. Nada, absolutamente. Ela era uma estátua com uma de suas mãos em uma das minhas. Senti um estalo, um sinal que indica o momento certo de agir. Fui.
        Estiquei-me de modo que meu rosto se alinhasse de frente para o dela. O mármore abriu um sorriso lindo. Me aproximei com o intuito de dizer nada, deixar a situação moldar os acontecimentos, porém, uma frase em voz fraca e rouca saiu: vem pra mim.
        O beijo dissolveu tudo. Do nervosismo até as paredes do cinema. O escuro tornou-se um claro de paz atingida. Nada mais via, ouvia, sentia além dos sorrisos colados um no outro.
        Foi doce, suave como o primeiro beijo na pessoa amada deve ser.

Por H. O.

18/01/2010

Alívio de verão.

Numa marmitex. É como me sinto. Sabe como é, o bafo quente que deveria subir com toda sua leveza de moléculas espalhadas à mercê dos ventos parece estagnado. O papel/material da qual é feita a embalagem da marmita reflete, em linguagem leiga, a temperatura emitida pela comida de volta pra ela, retendo o seu calor.
As antes ilhas de calor coalharam numa cidade-bóia que mantém seus habitantes com temperatura exocorpórea nada mais nada menos que 42 graus célsius, com sensações térmicas que variam entre 50 e 55 graus da mesma escala. Está impossível.
Nos tempos de infância, diria eu às forças que controlam o tempo que devolvessem meus hominhos, se não sabem brincar. Suar nas escalas atuais era uma coisa inimaginável há 10 anos atrás. Chame de pobreza, mas ainda bem pude ter uma infância sem camisa e descalço sobre o asfalto sem conseguir de brinde uma insolação ou queimaduras solares nos ombros e rosto.
Esta cidade que, desde 2007, se gaba por ser a mais arborizada do Brasil e a segunda em perspectiva mundial, com aproximadamente 94 m² de mata/habitante assemelha-se a cada dia que o sol a castiga com uma quentinha-capital disposta na grelha Centro-Oeste.
Mas todo esse quentume que nos faz goianienses habitantes de uma churrasqueira à bafo levanta uma questão interessante: como, com todos esses metros quadrados de área verde, essa cidade consegue estar tão infernal? Penso que a resposta esteja vinculada ao crescimento industrial, populacional, industrial et cetera que a cidade, digamos, sofreu nessa última década. Esse avanço que nos trouxe emprego, habitantes, status e vantagens afins nos proporcionaram – que me corrijam os especialistas - prédios por toda parte que, são além de moradia empilhada, barreiras que impedem a  circulação dos ventos, usinas que fumegam poluição contribuindo para formação de outras ilhas-de-calor que se transformarão em um estado-de-calor entre outras coisas que podem agravar nossa situação de forno, fazendo de nossa tão endeusada mata uma porção de brócolis, e sabe bem o gosto que tem brócolis...

Droga, enquanto fico a pensar bobagem, perdi a garrafa de uma das únicas coisas que suam não importa quão geladas estejam.
As gotículas surgem transparentes e contrastam enquanto escorrem gélidas e numerosas com a embalagem e com o louro conteúdo: cerveja.
Grito: chefe, desce outra gelada pra ontem! E o calor é que se foda!

Por H. O.

29/12/2009

O inventário.

Dor nas pernas, na planta dos pés e na cabeça. As costas parecem ter passado por um moedor e o nariz respira, por hora, caminhões de pó que nem os mais viciados ousariam cheirar. Inventário, mais um dia gasto diante de uma mesa improvisada de madeirite contando embalagens de remédio, separando-as por lote e informando ao programa de computador a sua quantidade. No galpão, filas de estantes enormes são dispostas à nossa esquerda e páletes portando as caixas são empilhados e armazenados dando-as volume assustador.

A função de 15 trabalhadores, incluindo a mim, é guiar, azarados, um porta-páletes através dos corredores murados por pilhas e pilhas de remédios, pegar um morro de caixas, levá-lo até meu terminal de contagem e começar o sofrimento.

Dois, quatro, seis lotes de remédios diferentes e milhares de unidades para contar, conferir e informar ao programa de computador sua data de validade, lote e quantidade, sendo que num pálete são empilhadas de 40 à 70 caixas e demora-se, em média, 20 minutos para registrar cada uma. Tudo isso para ganhar R$3,50 por hora, pagamento que faz um sujeito aguentar 15 horas diárias de segunda à segunda, com pausas apenas para o almoço e para a janta por duas semanas para tirar um extra e comprar um presente de natal pra sua família.

A empresa de contagem funciona das oito às vinte-e-três horas, instigando os trabalhadores a ficarem mais um pouco, ganharem mais. É desumano, apesar de eu estar lá por vontade própria. Quinze horas de trabalho me levam direto à realidade do início da revolução industrial, quando donos de empresas exploravam sem pudor seus empregados, fazendo-os trabalhar durante dezoito, vinte horas diárias para receber um salário miserável. Triste e, ao contrário de mim, eles não tinham escolha.

Optei por ficar e trabalhar por apenas um período, matutino ou noturno. O flagelo periódico parece mais suportável à mente desinteressada e robotizada e ao corpo que grita em estalos altos de mal-jeito a cada movimento forçado. Entre as centenas de caixas empilhadas na base de madeira, em pé, escolho uma e dou início à atividade. Depois de tê-la computado me abaixo e a deposito em outro pálete, vazio. Faço isso tantas vezes por dia que quando termino minha coluna falta piscar de felicidade. Entre os operários mais necessitados, a conversa e as risadas são raras, mas existem, para que não façam lama com suas lágrimas no chão imundo.

Em um mundo como esse é assim que aprendemos a dar valor nas coisas. Depois de passar por um dia como contador de inventário não se menospreza mais como antigamente. Quatro horas depois de ter começado, após o término do meu pálete, vou-me embora. Deixo os portões monitorados da empresa e os colegas que sofrem para sustentar suas famílias, para entrar em um ônibus lotado.

Catinga. Fragrâncias desconhecidas de fedor trescalam e embaçam as janelas da condução. É cheiro forte de gente que exerceu funções braçais o dia inteiro. Lembro-me de uma das últimas frases do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels “proletários de todos os países, uní-vos” e então percebo que não há classe mais unida que essa. Mas não, ainda, com os propósitos revolucionários contidos na bíblia do proletário, pois os rostos tanto dos jovens como dos velhos são de cansaço, impaciência e de falta de conhecimento, não sabem a força que tem a foice unida ao martelo. Trabalhadores por opção ou não, todos preferem ficar por uma hora dentro de um ônibus lotado, sujo e fedorento do que trabalhando mais um minuto entre caixas, ferramentas e linhas de produção. Abusados e com direitos tolhidos, persuadem a si mesmos para continuar, e continuam.

 

Por H.O.

Chocolate



É domingo. São sete horas da manhã. Pernas realizam movimentos com parcimônia e levantam-me. Roupas estão jogadas aqui e acolá, acusando minha rotina de todo sábado à tarde. Nesse dia, o sexo é uma prática inevitável e, na verdade, gostaria que fosse inevitavelmente diário.
            Cheiro de café invade minha residência. Sua fumaça sobe como cheiro de calmante incenso às minhas narinas. Ao lado, o modem da internet está com problemas; queimado; de novo. Mas e daí? Hoje não é dia de me contaminar com cheiros desgostosos.
            Cheguei em casa às treze e vinte. O sábado estava mais ensolarado que nunca. Brilhava acima e sobre os telhados; iluminando a todos, do mendigo mais imundo ao empresário mais higiênico. Não escolhe, ele não.
            A casa estava um lixo, como sempre. Moradia masculina que se preze tem pelo menos uma cueca pendurada num local que todos a possam admirar. Em minhas mãos pairavam outros dedos, sem pêlos, claros e delicados. Eram os dela e eu a puxava pra dentro.
            Roupas outras num átimo começaram a voar. Sutiã rodou no ar como um bumerangue que não sabe o caminho de voltar. As outras peças, minhas e dela, só caíram.
            As pernas dela se enroscaram, braços se prenderam e movimentos suados deram início à esperada tarde de sábado. A atividade fora tão intensa, a cama ficara tão ensopada que era impossível dormir, cabia ali só a tentativa de não afogar. Ficamos parados; olhando para o teto como se o patamar de prazer se fizesse "enxergável" além da alvenaria. Depois, virados em meia-lua, cheirei a nuca despelada, enquanto tentava pentear alguns fios de seu cabelo com barba grossa e mal-feita. A casa agora emanava perfume, suor, intensidade e mulher.
            "Vamos fazer brigadeiro?", disse a voz feminina ansiosa por glicose. Concordei com a cabeça e caminhamos como Adão e Eva pelo paraíso de cuecas e outras vestimentas entulhadas em direção à cozinha. Gás, pólvora queimada, fogo. A panela esquentou e quatro mãos se revezaram ao misturar os ingredientes do chocolate caseiro. Bolinhas de serotonina. Prazer, dessa vez de origem culinária. Comemos a sede e bebemos sua morte, água e brigadeiro, uma combinação incomparável.
            As pálpebras do dia se fecharam. O sol se foi e junto com ele foi ela. O gosto dela em minha boca não é tão veemente quanto agora é seu cheiro em minha casa. Sua essência faz-me lembrar e acreditar que é, sim, possível encarar a cruel realidade como se todos os dias tivessem tanto o sabor quanto o cheiro do delicioso chocolate de sábado. Obrigado.

Por H. O.


03/12/2009

Egoísmo

    Terminal da praça da Bíblia, que nome irônico para um terminal rodoviário. De fato é um local onde todas as religiões devem se tornar duvidosas. Pobreza, moléstias e pressa compõem o primeiro "ménage à trois" do desprazer. Duas blasfêmias brutas num só local. Uma em relação à bíblia e outra ao sexo.
     O caos é completo mesmo às vésperas do momento em que os ônibus param de circular. O movimento de pessoas é intenso. Mulheres, homens, trabalhadores, estudantes, pinguços e desocupados trafegam pelas vias imundas de fumaça, sujeira, descaso e falta de educação dos próprios usuários. Hoje não foi diferente, exceto por um acontecimento inusitado.
    Estava eu pairando sob a placa do ônibus mais medíocre, imagino, do planeta. Sentei-me no chão, pois o cansaço do momento dispensava qualquer luxo.Todas as linhas de ônibus iam e vinham numa velocidade impressionante, só a que eu queria que não.
    A dor que freqüentou minha cabeça durante todo o dia começou a incomodar. O som de gente comendo, o cheiro de suor e a vontade de estar em casa fez com que a cefaléia criasse pernas e com elas sapateasse em meu cérebro. A paciência de Lenine não cabe àquele lugar.
    De repente, quatro moleques, um mais magro que o outro, trajando roupas largas para seus corpos de frango, chamaram minha atenção. Rumaram para o meu ponto 263 - PC Campus - Itatiaia - Praça da Bíblia. Seus rostos emitiam confusão, não do tipo que causa dúvida, mas conflito. Encaravam um rapaz também franzino vestido como um estudante adolescente. Quando finalmente o alcançaram, o folgado que tomava a frente e que parecia liderar o grupo disse em voz alta "você é de galera, né?" o vitimado tentou a diplomacia dizendo que tinham-no confundido com outra pessoa.
    Eles saíram, melhor, sublimaram. Não os vi por um bom tempo, até que o dois-meia-três chegou, parou e as pessoas, como gado no tronco, subiam na última condução do dia.
    Depois de todos nós condenados nos "acomodarmos" nos acentos limpos como a cara de quem os limpa, os briguentos finalmente apareceram, foram os últimos a entrar e o fizeram com o maior barulho possível. Talvez acharam que assim provocariam mais medo ou qualquer outra sensação tanto no indivíduo desafortunado quanto no restante dos passageiros, um fracasso só.
    Objetivos, partiram para resolver a pendência, coisa de gangue, pois a vítima foi acusada de ter "quebrado" um "amigo" dos frangotes. Pessoas que estavam no fundo do ônibus deixaram seus lugares para se livrarem de qualquer atitude desagradável que os "intimidadores" poderiam fazer. Permaneci quieto, de butucas e ouvidos atentos, tentando entender algo do que diziam.
    Ao som do motor obsoleto e mascarado por lataria de "transporte de primeiro mundo", as vozes dos guris pareciam meros sussurros aborrecidos. Tentei então observar sua linguagem gestual. Ameaçavam o coitado o tempo todo. Nesse instante, virei pra frente e fiquei imaginando o que faria se eu fosse o dono dessa situação. Ser ameaçado por quatro capas-de-gaita não deve ser tão aterrador, então, a única conclusão que cheguei é que iria tomar um remédio que fizesse a cefaléia sucumbir.
    Quando voltei à realidade, o azarado tirava com face triste seus calçados e sua blusa de frio. Um assalto num ônibus lotado; mas que ridículo. Em troca de seus bens, deram-lhe um soco barulhento e desceram do condução às gargalhadas, mas que moleques podres. O laço faz cada vez mais falta na educação das crianças hoje em dia.
    Pontos e curvas depois, desci do caixote automotor e comecei a refletir sobre o ocorrido: gente, não, coisas desse tipo deveriam sofrer. Nossa segurança "garantida" por impostos pagos a cada metro cúbico de ar respirado não depende somente de dinheiro, também da boa-vontade dos guardas, um mais barrigudo que o outro. Isso fez com que eu me questionasse duplamente: fiz certo em votar "não" para que o porte de armas-de-fogo não fosse legalizado? Será que o indivíduo mereceu? Para ambas as perguntas, tomara que sim. Ah, quer saber? Foda-se. Foi por pensar tanto que perdi a chance de perguntá-los se tinham um comprimido para dor-de-cabeça.

Por H. O.